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Educação
para os adultos
* Ana Aranda
Motorista de ônibus, seu Francisco assumiu recentemente um novo
emprego. Revezando-se para atender várias equipes de funcionários
durante o expediente, ele trabalha com a ajuda de um telefone celular.
O vistoso aparelho que, à primeira vista, parecia um importante
sinal
de status e melhoria de condições de trabalho virou motivo
de desespero. Não entra na cabeça do Seu Francisco a lógica
que faz o aparelhinho funcionar. São muitos botões,
com funções diferentes.
Alta tecnologia, complicada mais para quem até agora só
teve acesso aos orelhões instalados nas esquinas e não
passou da terceira série do Ensino Fundamental. Mas os desentendimentos
de
seu Francisco com a modernidade não estão lhe causando
só este contratempo. O auge do desconforto se manifestou no dia
do primeiro
pagamento. Munido de um cartão eletrônico, ele passou
por um grande vexame no banco. Como entender e obedecer a tantos comandos
da máquina que substituiu o funcionário do caixa? Sem entender
a engenhoca, seu Leonardo resolveu enfrentar a fila por cerca de meia hora
(como nos bons tempos em que não se tinha acesso a tanta tecnologia)
para receber o dinheiro no balcão. O
privilégio custou caro: uma taxa extra, bastante significativa
para quem leva um salário mínimo para casa todo final do
mês. Seu Francisco não está sozinho. Como ele, um grande
contingente de
pessoas não consegue se adaptar às regras ditadas pela
tecnologia, que aos poucos toma conta de todos os setores da vida. E não
são só
os ditos analfabetos funcionais que se dão mal com tanta modernidade.
É grande o número de pessoas com mais de 40 que, apesar dos
diplomas universitários, se intimidam com o mouse e os
comandos do computador. A propósito deste assunto, a necessidade
de dar condições de
educação para a população adulta do Brasil
conseguiu sensibilizar até mesmo os técnicos, geralmente
implacáveis e frios, do Banco Mundial
e do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Através de um
estudo, eles constataram que a maior parte dos alunos de ensino médio
do Brasil frequentam a escola noturna. Fazem parte do
significativo contingente de pessoas que foram pegas de surpresa pela
globalização e estão indo à luta para se adaptar
aos novos tempos e continuar no mercado de trabalho. Diz o estudo que 58%
dos estudantes do 2º grau têm mais de 17 anos
(idade em que deveriam estar concluindo o curso) e trabalham durante
o dia. O estudo também constatou que o governo federal investe mais
nos cursos de 2º grau ministrados durante o dia do que
nos cursos da noite. O que mais impressiona nesta história toda
é que o Ministério da Educação tenha que ouvir
este tipo de reivindicação do Bird e do Banco Mundial.
E já que a sugestão foi feita, a população
mais pobre e mais necessitada, que precisa trabalhar e estudar para sobreviver,
espera que ela se torne uma realidade. Para impedir que
continue crescendo o número de brasileiros que vivem como miseráveis
no País.
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